2021: o rebrotar de uma nova consciência

Precisamos e queremos uma mudança, sem nos deixarmos levar pelo “sempre foi assim”. Ouço ultimamente muita gente desanimada com a falta de humanidade do ser humano… Também me pego assim às vezes. Uns dizem que nada mudou com pandemia. Seguimos como sonâmbulos e estamos indo rumo ao desastre, como diz o filósofo Edgar Morin?

Mas o mundo, as instituições, as empresas e as famílias são feitas de gente. Eu e você. E nós temos a liberdade de escolher como vamos viver e consumir. Temos a liberdade de assumir nossa responsabilidade na transformação do mundo. sem olhar para o lado, sem prestar atenção no que os outros fazem ou deixam de fazer. Eu sou o mestre da minha vida.

Vivemos a banalização do mal, como diz uma das pessoas que mais admiro e que conheço, o fotógrafo, ativista e cineasta Yann Arthus-Bertrand. Estamos falando da sexta extinção da vida na Terra… 7 milhões de pessoas morrem por ano devido à poluição, uma criança morre de fome a cada cinco segundos, uma pessoa se suicida a cada 40 segundos no mundo, o número de pessoas obrigadas a deixar suas casas por perseguição, conflito e violações de direitos humanos ultrapassou 80 milhões neste ano… e seguimos levando nossas vidinhas como se não tivéssemos nada a ver com isso.

Somos viciados em crescimento. Para frente e para cima é a direção do progresso que nós conhecemos. Mas uma economia saudável deveria ser concebida para prosperar e não para crescer, explica a economista Kate Raworth em seu livro Economia Donut.

Te convido a fazermos de 2021 o ano do rebrotar, da regeneração. A palavra vem do latim regenerare e significa: melhorar moral ou eticamente, organizar novamente, dar uma nova vida. Espero que não se ofenda, quando eu digo que precisamos melhorar moral ou eticamente, mas somos o país do jeitinho…Dar uma nova vida às minhas metas e objetivos, ao meu empenho e determinação. Precisamos de coragem, não de esperança.

Ninguém se salva sozinho. Ninguém tem o direito de se sentir mais humano do que outro, alerta o Papa Francisco. A medida do desenvolvimento é a humanidade. É “tempo de ousar o risco de favorecer e estimular modelos de desenvolvimento, de progresso e de sustentabilidade em que as pessoas, e especialmente os excluídos, entre os quais a irmã terra, deixem de ser uma presença meramente funcional, para se tornar protagonistas de sua vida”. Precisamos de uma cultura do cuidado. Comigo, com o outro e com o meio ambiente.

Percebemos cada vez mais como tudo e todos estão conectados. Entendemos nossa fragilidade. Yann Arthus-Bertrand fala de uma ecologia humanista. Do despertar de uma consciência amorosa. O monge Matthieu Ricard afirma que temos um estado fugaz de bondade, porque não cultivamos o amor altruísta de forma sistemática, que não se integra de maneira adequada à mente, e, assim, não resulta em transformações duradouras enraizadas em nossa personalidade.

Nossa mente. Ela pode ser nosso pior inimigo, quando ligamos o piloto automático, deixamos os pensamentos inúteis e negativos inundarem nossa mente como cavalos selvagens descontrolados. Buscamos no mundo externo, nos bens materiais, preencher um vazio interno. E alimentamos a gananciosa cadeia mundial do consumo. Há outra dimensão de silêncio, quietude, luz e poder que a gente pode acessar.

Liberdade é quando asseguro tempo da minha vida para ser gasto nos afetos, garante o agricultor e ex-presidente uruguaio, Pepe Mujica. Seremos capazes de dar uma direção, chegar a um acordo político de caráter mundial que obrigue a tomar medidas como a ciência recomenda ou vamos continuar por uma competitividade fria e vazia nesse carnaval de competência aparente que propõe o acúmulo?

A vida só tem sentido quando damos sentido a ela. A vida é para servir, desfrutamos da vida a partir dela ser útil e com propósito. É hora de nos reconciliarmos com a natureza. E que no final não existam mais ‘os outros’, mas um grande ‘nós’. A busca do bem-comum. E não é o que temos visto na pandemia: nações tomando decisões isoladas, interceptando carregamento de EPI de outros países, garantindo compra de vacinas primeiro. Não estamos aqui para isso.

É tempo de desenvolvermos senso de pertencimento, empatia e generosidade. Não subestime sua capacidade de mudar o mundo. Você pode amar ou não gostar de Greta Thunberg, mas ela é, para mim, a melhor prova do nosso poder individual. Sentadinha calada, com um cartaz na mão, ela conseguiu mobilizar milhões de jovens no mundo, foi candidata ao Prêmio Nobel da Paz e capa da revista Time.

Que em 2021 nós alcancemos nossa melhor versão e que colaboremos a colocar em prática os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, tornando o mundo mais justo, amoroso e durável.

Como diz o navegador Amyr Klink: “Sabe qual a qualidade mais bacana do barco? É que o desgraçado afunda. E a Humanidade está em cima de um barquinho chamado Terra. Se tem algum furo, todo mundo tem que investigar e atuar em conjunto”. Feliz 2021 para nós!

Artigo publicado originalmente no site Plurale

Foto de freestocks.org no Pexels

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