Consumo consciente: boicotar marcas ou produtos?

Quando a gente acredita muito em algo, quando aquilo faz todo sentido para você, às vezes pode acabar consciente ou inconscientemente tentando impor as ideias aos outros. E do jeito que as pessoas estão sem equilíbrio e raivosas, a polarização não para de crescer, vide amizades abaladas ou rompidas em tempos de eleição.

Nesse artigo quero te convidar a abrir sua mente, deixas suas crenças de lado e olhar os dois exemplos que vou mostrar como um observador desapegado. O mundo já está cheio de rótulos, de carimbos: vegetarianos são do bem, carnívoros são agressivos, veganos são radicais, quem medita é zen…. Não é assim que funciona.

Danone

Recentemente foram publicadas matérias sobre a Danone passar a produzir leite de amêndoas, trocando inclusive a vaquinha da embalagem pela oleaginosa. O fato da gigante francesa de produtos lácteos decidir investir em opções com ingredientes vegetais não está ligado à compaixão aos animais. É uma necessidade mercadológica devido à queda nas vendas dos iogurtes de origem animal.

Há dois anos, a empresa comprou a marca americana de produtos veganos orgânicos White Wave Foods.

Sobre essa notícia, o portal vegano Vista-se teve uma opinião positiva, mas com ressalvas.

“Do ponto de vista comercial e de variedade de produtos vegetais no mercado, é uma excelente notícia. Para as vacas, sistematicamente exploradas e mortas para a produção de laticínios, é muito bom que grandes empresas substituam o leite animal pelo leite vegetal.

No entanto, infelizmente, a Danone ainda mantém os testes em animais, condenados por quem se importa com os animais.”

O lado bom da Danone

A empresa afirma que trabalha para fornecer produtos mais saudáveis e acessíveis, promove hábitos e estilos de vida mais saudáveis, possui uma série de programas ligados à nutrição e saúde, projetos socialmente e financeiramente sustentáveis em parceria com ONGs e comunidades locais, iniciativas socioambientais que exercem impacto sobre a forma como as matérias-primas são fornecidas ou como sistemas de reciclagem são organizados, além de oferecer alimentação e informação sobre nutrição para populações vulneráveis.

Mãe Terra

Em outubro de 2017, a Unilever (gigante de alimentos, produto de limpeza e cuidados pessoais), comprou a Mãe Terra, empresa com sede em Osasco/SP, que produz alimentos naturais e orgânicos.

Alexandre Borges, CEO da Mãe Terra, afirmou: “A Unilever entende como é importante preservar nossa cultura ancorada em propósito para manter o crescimento do negócio e a popularidade de nossos produtos. Possui conhecimento e escala únicos que nos ajudarão a acelerar nossa missão de trazer alimentos naturais e orgânicos a um número maior de pessoas no Brasil”.

E Fernando Fernandez, presidente da Unilever Brasil, disse que “a marca tem excelentes produtos e uma base crescente de consumidores leais no Brasil. A Mãe Terra fortalecerá nosso portfólio de alimentos permitindo que aceleremos nossa expansão nos segmentos naturais e orgânicos que crescem de forma importante”.

A questão é que a Unilever testa em animais para produtos de outras marcas, que fazem parte do seu enorme portfólio.

O lado bom da Mãe Terra

É uma empresa do sistema B, comunidade global de organizações que buscam o desenvolvimento socioambiental, além do econômico, privilegia pequenos agricultores, possui refeitório com opções veganas, participa da Campanha Segunda Sem Carne gerando economia de quase 200 milhões de litros de água por ano, utiliza composteira, fornece canecas no trabalho, reduzindo o consumo de 60 mil copos, e compra insumos orgânicos de agricultores familiares.

A marca posta conteúdo que faz bem como receitas saudáveis, a importância de saber ler os rótulos dos produtos, como fazer uma hortinha com crianças e os tipos de ervas para temperar os alimentos.

Mas os comentários fofinhos e amigáveis no Facebook da Mãe Terra reduziram após a aquisição da marca pela Unilever. Em um post que fala que a biodiversidade brasileira está presente em cada produto que fazem, a empresa foi bombardeada com textos assim:

“E sabe qual é o maior inimigo dessa biodiversidade? As grandes corporações, entre elas a Unilever que comprou essa marca! São as grandes corporações que estão extinguindo as sementes crioulas, tornando impossível para os campesinos seguir com sua cultura tradicional, acabando com a autonomia dos pequenos produtores. Nojo desse marketing que mascara a concentração de recursos e pinta de verde práticas comerciais nada sustentáveis.”

“Muito bom, mas… A cada produto Mãe Terra que você compra, seu dinheiro serve para financiar sabe quem? A Unilever, que é uma das grandes responsáveis por práticas nada sustentáveis e que contribui grandemente para a diminuição da biodiversidade. Portanto, se você quiser ser realmente uma pessoa que contribui para a melhora do mundo, compre diretamente de pequenos produtores. Mãe Terra não.”


O lado bom da Unilever

A multinacional tem um Plano de Sustentabilidade da Unilever (USLP) que engloba várias áreas, entre elas, saúde e higiene, aprimoramento em nutrição, gases do efeito estufa, uso de água, resíduos e embalagens, entre outros. E mostra no site as ações que foram alcançadas dentro do prazo e as que estão fora do prazo.

Sobre a redução pela metade dos resíduos associados ao descarte dos produtos até 2020 – em 2017, o descarte reduziu 29% em relação a 2010. Já a diminuição à metade do consumo de água associado ao uso dos produtos até 2020 está fora do prazo – em 2017, o impacto sobre o consumo de água caiu cerca de 2%† em relação a 2010.

 

 

 

Um artigo de Lucas Alvarenga no site Veganismo Estratégico, que recomendo muito a leitura (seja você carnívoro, herbívoro, o que for), fala que: “Há uma imensa confusão no ativismo brasileiro em relação ao boicote de empresas e ao boicote de produtos. Curiosamente, quando uma marca de uma grande empresa lança um produto vegano, alguns veganos ainda buscam criticá-la. Sempre me pergunto por que esses mesmos ativistas são indiferentes quando essas mesmas empresas lançam produtos com ingredientes de origem animal, mas ficam euforicamente nervosos quando elas lançam produtos livres de ingredientes de origem animal e que não dependem de testes em animais. Isso me leva a crer que alguns ativistas estão mais preocupados com o que veganos devem consumir do que com o que não veganos podem ter a oportunidade de consumir.”

E continua: “Não existe qualquer diferença moral entre explorar um animal para alimentação e explorar um animal para testes. Boicotar um produto vegano (vegetariano estrito e que não depende de testes em animais) de uma empresa que testa em animais para outros produtos é a mesma coisa que boicotar um produto vegano de uma empresa que produz outros produtos de origem animal. Quanto mais produtos vegetarianos estritos que não dependem de testes em animais no mercado, melhor para os animais. Mais opções cruelty-free disponíveis e mais fácil é a transição para milhões de pessoas.”

A apresentadora do Diário de uma vegana no canal GNT e autora do livro de mesmo nome, Alana Rox, comemorou no Facebook a decisão de empresas oferecerem, cada vez mais, produtos de origem vegetal e compartilhou o artigo do Lucas, convidando as pessoas a fazerem o mesmo.

Ela diz: “texto esclarecedor que pode poupar milhões de animais, salvar milhões de pessoas e economizar o meio-ambiente. A cada produto vegetal comprado ao invés de 1 produto animal: 1 animal é salvo e milhares de litros de água tbm.”

Como eu lido com isso tudo?

Compartilho aqui minha vivência como lacto-vegetariana, praticante de meditação, ligada à sustentabilidade e proteção animal. Se você já acompanha meus artigos no LinkedIn, sabe que compartilho conteúdo que faz bem: para você abrir a mente, refletir, experimentar, agir, se conhecer e se transformar.

Eu me esforço em não adquirir produtos de limpeza, cuidados pessoais e maquiagem de empresas que testam em animais, porque considero extremamente cruéis esses experimentos, e há excelentes opções veganas no mercado (quem quiser saber mais sobre os testes em animais, acesse os sites da ANDA, PEA e PETA).

No mundo ideal, não estamos destruindo o planeta, não há milhões de pessoas morrendo de fome e sem acesso à água, há justiça social e respeito aos direitos humanos.

Admiro alguns ativistas veganos que realmente se envolvem com a causa, disponibilizam seu tempo, recursos e energia para pressionar políticos, empresas, etc. Acho que o Boletim Vegano desenvolve um belo trabalho pelo fim da carga viva nos portos. Mas no que se refere à sensibilização das pessoas, que poderiam ser inspiradas, por exemplo, a reduzir o consumo de carne e laticínios, todo esse amor acaba fazendo um desserviço.

Sim, me incomoda MUITO dar dinheiro aos grandes grupos que vendem produtos de origem animal, mas eles estão comprando empresas de alimentos que consumo, então há que se refletir qual é a melhor decisão a tomar.

Eu vou ter que concordar com o Lucas, quando ele fala que quanto mais produtos veganos estiverem disponíveis, são menos animais mortos, menos danos ao planeta e mais uma oportunidade de pessoas começarem uma mudança de hábitos, seja lá em qual nível for.

E você? O que acha disso tudo? Gostaria muito de saber a sua opinião. Acho que se trata de um debate muito necessário.

Sou produtora de conteúdo digital, idealizadora do Projeto Conexão e Essência e jornalista. Fiz uma videoaula gratuita sobre Como Criar Conteúdo Surpreendente para negócios de vida saudável. Nela, você vai aprender em que deve focar na hora de criar conteúdo, quais os objetivos de uma estratégia de produção de conteúdo e como sensibilizar e engajar o público. Basta acessar esse link.

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