Humanidade no modo-sacode

Humanidade no modo sacode

Fomos obrigados a parar. Na marra. Quando todo mundo dizia ser impossível parar a economia, o crescimento e o consumo.

Percebemos como somos vulneráveis. Carl Sagan fala do ‘pálido ponto azul na imensidão do universo’. E nós, pequenos pontinhos no planetinha azul.

Há 10 mil anos, a biomassa de animais selvagens na Terra correspondia a 99% e os seres humanos 1%. Atualmente os animais selvagens são apenas 4%, nós 36%, e os 60% restantes são animais da pecuária. Para nos alimentar. Eu não. Sou vegetariana há 10 anos. Não deixei de gostar de carne. Continuo gostando. Eu deixei de comer por entender como isso destrói o planeta, minha saúde, é estupidamente cruel com os animais e atrapalha a minha meditação. Não consigo meditar ingerindo diariamente a energia de morte de outro ser que, assim como eu, merece ser feliz.

Então fica a pergunta: você está disposto a abrir mão do seu conforto, do prazer das suas papilas gustativas, das ‘facilidades’ que o mundo trouxe em prol de um planeta com condições minimamente decentes para que consigamos viver? Todos nós. Não uma minoria vivendo bem e outros tentando sobreviver.

Estamos assustados com a covid19. Por que não agimos antes? Centenas de países, principalmente o Brasil, têm cortado investimentos em saúde e ciência há vários anos. E agora estamos todos desesperados atrás das máscaras chinesas e dos reagentes para kit teste vindos de lá, mas também da Alemanha e Coréia do Sul. Esses países não reduziram verba para ciência. E por que nenhum país questionou e propôs algo pelo fato de a China produzir sozinha 90% dos equipamentos de saúde usados no mundo? Ninguém achou arriscado um país totalitário dominar produtos tão fundamentais para a humanidade?

Os cientistas há décadas nos avisam sobre a crise ecológica. Covid 19? Não tem nada de novo aí. Eles alertaram que a globalização, urbanização e consumo excessivo de carne trariam novos vírus que seriam espalhados rapidamente. E não fizemos nada.

Poluição dos oceanos, redução da biodiversidade, problemas de segurança alimentar, ondas de calor que matam cada vez mais pessoas, degelo da Groelândia, aumento do consumo de petróleo… Não fazemos nada.

“Nós nos tornamos nosso pior inimigo. Não precisamos de esperança, mas sim de coragem”, diz o fotógrafo, cineasta e ambientalista francês Yann Arthus-Bertrand.

“Antecipação é tudo de que não somos capazes de fazer. Basta olhar para a meta crise ecológica que será certamente muito mais grave do que o coronavírus”, também alerta o amigo de Yann, físico e doutor em astrofísica Aurélien Barrau.

Isabella Sacramento, palestrante, professora e sócia da TAO Estratégia fala em “aguçar o olho”, acordar com o olhar treinado procurando coisas bonitas. Trabalhar novos conceitos e possibilidade. Integração. Sensação de rede e de conexão.

Sim, ninguém quer morrer de covid19 nem perder alguém que ama. Mas estamos muito desconectados do que nos diferencia de todo restante das espécies. Ser humano. Enxergar no outro a minha humanidade. Me reconhecer no outro. Somos todos irmãos morando na mesma Casa Comum. Tudo está interligado. Não somos nada sozinhos. Não fazemos nada sozinhos.

Murilo Gun, em seu excelente curso online Reaprendizagem criativa, cita a professora Lucia Helena Galvão: “Eu te desafio a encontrar um problema no mundo, um, tanto pessoal ou social, que o egoísmo não esteja escondido atrás. Isso é heresia da separatividade. Achamos que somos algo separado do outro.”

O estado do planeta é resultado do nosso estado interno. (já escrevi aqui na Plurale sobre isso). Poluição no ar e no mar, poluição na minha mente (meus pensamentos). Falta de paz, de empatia e altruísmo.

“Como não cultivamos o amor altruísta de forma sistemática, esse estado fugaz de bondade não se integra de maneira adequada à mente, e, assim, não resulta em transformações duradouras enraizadas em nossa personalidade”, afirma o monge budista Matthieu Ricard.

Tenho ouvido muita gente dizendo que o mundo não vai mudar. Que as pessoas seguem individualistas. Acho isso uma desculpa para eu não agir. Não importa o que o outro faz. Eu estou no comando da minha vida e sou responsável pelas minhas escolhas, não as dos outros. Então eu faço o que é preciso fazer. Sem olhar para o lado. Quanto mais agimos diariamente em direção ao mundo de que precisamos, mais felizes somos e mais paz de espírito temos. Porque sei que estou fazendo algo, estou dando meu máximo. E quem sabe não consigo tocar os corações de algumas pessoas e seguimos juntos nessa caminhada?

A indiana Jayanti Kirpalani, diretora da escola de meditação e qualidade de vida Brahma Kumaris na Europa e oradora sênior das Conferências da ONU sobre Mudanças Climáticas, fala que devemos sim ficar em casa. Mas tem outra casa da qual não podemos esquecer: a Casa do Silêncio, do autoconhecimento, além de todos os elementos da matéria. O meu ‘eu interior’, onde está a nossa verdadeira natureza. Quem eu sou. E todos nós somos seres plenos de paz, de amor e de bondade. Não somos o estresse, ansiedade, medo, angústia, preocupação, raiva e cansaço. Temos dentro de nós um oásis de tesouros.

“…se mudarmos nossos pensamentos e levarmos nossa atenção para dentro de nós, conseguiremos conectar com nossos recursos naturais de paz, beleza e verdade. Então não precisaremos comprar felicidade, comprar amor, mas saberemos que podemos acessar isso dentro de nós. Dessa forma a qualidade de nossas ações muda e o impacto que temos no mundo também muda.”

O vírus nos trouxe muito dever de casa. Não à toa muitos de nós estamos em casa, teoricamente com mais tempo livre. Então te convido a deixar um pouquinho de lado o Netflix e fazer uma viagem interior. Inserir momentos de silêncio nos seus dias. Para se checar, se acalmar e se recarregar. O que estou fazendo para que o mundo seja um lugar melhor, menos desigual e sustentável?

“Não precisamos esperar o covid para saber que uma criança morre a cada cinco segundos de fome e que sete milhões de pessoas morrem devido à poluição do ar. Se não nos interrogarmos agora, tudo isso não terá servido a nada.

Se fizermos um gigantesco estoque de máscara, não servirá a nada, mas precisamos fazê-lo. Claro. Mas não é assim que resolveremos esse tipo de crise. Falta máscara, compramos máscara. Mas a próxima crise não terá o mesmo rosto”, Aurélien Barrau.

Artigo publicado originalmente no site Plurale

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