Quando a arte abraça Brumadinho

“Eliane era muito alegre e festeira. Adorava baladas e cavalgadas. Ela era meu tudo!” É assim que a engenheira civil Josiane Melo se refere à irmã grávida de cinco meses, uma das vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho no dia 25 de janeiro. Na tragédia morreram 271 pessoas e 37 estão desaparecidas.

No dia 25 de abril, três meses após, Eliane faria 40 anos. O corpo só foi identificado por impressão digital 69 dias depois.

Eliane trabalhava como analista de planejamento numa empresa terceirizada para a Vale desde agosto de 2018. E estava na mina na hora do rompimento da barragem.

A maioria das vítimas era de Brumadinho. A cidade ainda está sob grande comoção. Basta andar pelas ruas e conversar com qualquer pessoa. Todo mundo perdeu alguém importante, as pessoas se conheciam. O clima de tristeza é muito grande.

Josiane conta que as duas, engenheiras civis, planejavam abrir uma empresa de patologia civil e iriam começar a fazer mestrado, após o nascimento de Maria Elisa.

E foi na música que Josiane e a mãe Maria encontraram um pouco de conforto. Mais precisamente na canção “Esperança e amor” do músico e um dos coordenadores do Batucabrum, Sanrah Ângelo e do parceiro Marcos Aranha do Brasil.

“A primeira vez em que a gente ouviu a música estava no desespero. Fazia 30 dias da tragédia. A igreja fez um evento na ponte e a gente ainda tinha 1% de chance de acreditar que ela e a bebê estariam vivas. Sanrah cantou a música e ela retratava tudo que a gente realmente queria: “Se a gente pudesse voltar atrás, sorrir novamente…”

Ela conta que no mesmo dia foi com a mãe se encontrar com o músico para agradecer.

As irmãs Josiane e Eliane (esquerda), que estava grávida e morreu no rompimento da barragem

“A gente queria abraçar a Eliane de novo. Ficamos muito comovidas com a música. Nós temos um grupo no whatsApp de parentes de vítimas ainda não localizadas e colocamos essa canção lá. Ela também serviu para um grupo de famílias unidos pela dor”, revela.

A música foi gravada por artistas como Zelia Duncan, Flávio Venturini, Leila Pinheiro, Zizi Possi, Marcus Viana, entre outros. Ninguém cobrou cachê.

“O videoclipe ficou espetacular e ainda mais com o coral das crianças do Batucabrum. Todos aqueles artistas cantando uma música de Brumadinho. Ela está dando voz à população para que ninguém se esqueça. Eu queria que toda vez que tocasse essa música, as pessoas parassem e se lembrassem de Brumadinho. Para que isso não caia no esquecimento. E as crianças do Batucabrum remetem à esperança de um país melhor, com justiça, com leis. Entendemos que a mineração é muito importante, mas que seja administrada de uma maneira correta e que proteja os trabalhadores”, pede Josiane.

O poder transformador da música

O pedreiro Renato Menezes estava trabalhando na barragem 7 no dia do rompimento.

“Éramos nove pessoas e cinco desceram para almoçar justo no horário. Não sei se eles estavam já almoçando ou se preparando. Só que infelizmente foram almoçar e não retornaram. Eu não desci porque fiquei adiantando o serviço”, conta.

Rafaela, de 11 anos, filha de Renato, começou a participar do Batucabrum. O projeto, que existe desde 2006, tem sido muito importante para ajudar a lidar com as perdas da tragédia.

“Eu entrei para o projeto após o rompimento da barragem. Eu perdi um amigo e eu sinto que estou cantando para ele”, conta enxugando as lágrimas.

Segundo Sanrah Ângelo, o projeto é uma ocupação positiva para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Ele e o irmão Lecy Giovani o têm “como uma missão. “Acreditamos na música como um mecanismo muito eficiente para retomar a autoestima, para fazer com que mude a realidade de vida aqui de Brumadinho, que foi muito pesada. Esse trabalho com as crianças é muito importante. A gente nota isso através do depoimento dos pais. A arte em geral tem esse poder”, garante Sanrah.

“Levar nossa Missa Para Clarice a Brumadinho é uma missão. Por isso aceitamos imediatamente o chamado. É restituir ao mundo o caráter curativo que a Arte tem. Necessária para esses momentos de desamparo. A arte tem o poder de restaurar a alma, refazer o indivíduo, reconstruir”, afirmou Wotzik.

Após a apresentação da peça na igreja São Sebastião, que estava lotada, conversei com algumas pessoas. A maioria nunca tinha assistido a uma peça e não conhecia a escritora Clarice Lispector. Todas elogiaram e acharam muito importante receber eventos culturais, ainda mais de graça.

“A gente acredita que a arte, a música pode trazer consolo, tocar os corações e fazer com que a cidade renasça. A gente quer mostrar que nós, que o Brasil também é brumadinense e está com vocês nesse sofrimento. Receba nossa arte e nosso abraço”, diz o maestro Carlos Eduardo Prazeres.

O violinista David Vicente afirma que “é uma alegria pra gente poder passar qualquer tipo de energia positiva para eles.”

Agradecimento aos bombeiros

Domingo, 28 de abril, 5h50 da manhã. A orquestra Maré do Amanha chega ao Centro de Operações do Corpo de Bombeiros para se apresentar à corporação.

Os músicos, que não cobraram cachê para a exibição na praça da rodoviária, insistiram para ter esse contato com os bombeiros.

“Estamos aqui para ajudar e estamos sendo ajudados. É uma demonstração de que o ser humano é maior do que as tragédias de que ele pode produzir. Seu carinho, seu amor. Um presente como esse num momento tenso como esse não tem preço”, afirma o tenente-coronel Passos.

A violoncelista da orquestra Debora Silva ficou muito emocionada após a apresentação. Se abraçou aos amigos da orquestra e chorou.

“É muito forte tudo isso. Os bombeiros estão há 94 dias fazendo buscas. Estamos aqui numa área onde há pessoas soterradas”, disse ela.

No local, há vários painéis com fotos de crianças da cidade agradecendo pelo trabalho realizado.

Frases escritas por crianças do Batucabrum

“Fomos feitos para brilhar,

Não para ficar embaixo de nenhuma lama.

A vida não tem preço.

Brumadinho é uma cidade muito pequena, mas com pessoas com muitas emoções.

Ficou uma tristeza no nosso caminho.

Parece que a cidade não é mais a mesma.

O verde da terra sumiu.

Estou me sentindo um pouco vazio.

Eu me tranquei no meu quarto por dois dias.

O meu coração ainda dói. Levaram um pedaço de mim.

Os passarinhos e os animais sumiram.

Todos perderam alguma pessoa preciosa.

Eu perdi o meu melhor amigo. Quase perdi o meu pai.

A minha professora de dança morreu. Deixou duas filhas. Agora, sempre que eu danço, penso nela. Eu vou dançar.

As pessoas tinham planos para o futuro.

Mas é hora de recomeçar.

Recomeçar é o melhor caminho.

Recomeçar significa seguir em frente.

Brumadinho não acabou.

A dor vai sumir. Já a saudade irá nos visitar sempre.

Queria que houvesse mais amor, paz e harmonia daqui para frente.

Gente foi feita para brilhar. A vida de cada pessoa é um diamante.”

Artigo publicado originalmente no site Plurale

Fotos 1 e 3: arquivo pessoal

Foto 2: arquivo pessoal Josiane Melo

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