Vivemos numa negação coletiva: sabemos o que está acontecendo no planeta, diz ativista Arthus-Bertrand

Estávamos almoçando numa cantina italiana em São Paulo e o garçom traz uma tigela enorme de salada. Yann Arthus-Bertrand, fotógrafo, um dos maiores documentaristas do mundo e ativista me diz: “Tem muita comida!! Vai sobrar. Não dá pra ficar jogando comida fora.” Eu concordo com ele. Digo que tenho o hábito de pedir para embrulhar o que sobrou e ofereço a um morador de rua. Após comermos a salada e uma massa, saímos do restaurante. Estava chuviscando fraquinho. Logo avistamos um jovem dormindo na rua e Bertrand me diz: “Dê a ele”.

São 40 anos percorrendo o mundo e tirando algumas das mais belas fotos aéreas do planeta, tendo sido o precursor nesse formato de registro.

Com uma sensibilidade e olhares únicos para os detalhes, grafismo, relevos, cores e movimentos, Bertrand respira ecologia 24h/dia, 7 dias/semana.

Ele é um cidadão do mundo com o propósito de mostrar a grandiosidade do nosso planeta, nossa casa, mas principalmente alertar sobre nosso impacto nele. A Terra tão generosa e acolhedora, mas que grita e sangra há décadas. Temos sido os piores inquilinos possíveis: egoístas, imediatistas, ingratos e insustentáveis.

Ligado no 220w, exigente e, muitas vezes, impaciente, eu tive a fortuna de conhecer um homem apaixonado pela natureza, pelos animais e as pessoas, e que encontrou o sentido para a sua vida.

Paixão pela natureza

Aos 30 anos foi ao Quênia estudar leões e cuidou de uma reserva de animais por três anos. Para sustentar sua família: a esposa Anne, que também participava da pesquisa com os felinos, e os filhos dela Baptiste e Guillaume, Bertrand trabalhou como piloto de balão.

“Nós seguíamos a mesma família de leões todos os dias. Gostar deles e se preocupar com eles. Você se apega. Os leões foram meus primeiros professores de fotografia. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida e talvez não tenha me dado conta. É preciso saber quando somos felizes e aproveitar”, confessa.

Foi lá do alto que ele viu aspectos inéditos, além de informações preciosas sobre o nosso planeta, tornando-se especialista em fotos aéreas.

“Tento mostrar a beleza do mundo, mas também o que está acontecendo. Durante a Rio 92 (primeira grande conferência mundial sobre o meio ambiente), decidi fazer um grande trabalho sobre o planeta. Parti durante nove anos e isso mudou completamente a minha vida!”

Seu livro “Terra vista do céu” teve mais de quatro milhões de exemplares vendidos, foi traduzido em mais de 20 idiomas e deu origem a exposições, sempre gratuitas, em vários países, que foram vistas por mais de 10 milhões de pessoas.

Seu filme “Human” é uma aula sobre o que é o ser humano: o que nos une e nos separa. Nossa complexidade, mas sempre buscando a mesma coisa: sermos felizes. É o resultado de mais de duas mil entrevistas em 63 países. Simplesmente imperdível. Depoimentos contundentes. Gratuitamente disponível na web.

“Yann apoderou-se da Terra para torná-la mais compreensível e para melhor partilhá-la com aqueles que nela vivem”, Hervé de La Martinière, editor de Bertrand desde 1979

Compensação de CO2 para ajudar o planeta

Bertrand ficou em conflito, quando recebeu o convite do Banco do Brasil para participar, em São Paulo, do Inspira BB (falarei sobre esse evento no final). Ele descobriu que emitiria 4,12 toneladas de CO2, o equivalente à emissão de CO2 de duas pessoas durante um ano inteiro. E já tomou as providências para compensar esse impacto por meio de um projeto de compensação com biogás na Índia.

“Eu estou perdido nisso tudo. Venho dos anos 1980, quando acreditávamos que íamos salvar os elefantes. Nossa maneira de viver é impossível para o planeta, essa ‘religião do crescimento'”, desabafa.

Bertrand afirma que, quando desembarcou em São Paulo, caiu obrigatoriamente nas lojas do Duty Free. “Isso é mais forte nos países em desenvolvimento econômico. É mais forte no Brasil do que na França”.

Ele ressalta um aspecto em que acredito há muito tempo. “Temos muito mais poder sobre os políticos do que cremos. Quando fazemos protestos poderíamos ser milhões nas ruas pedindo o carro elétrico e sei que daria certo”.

Bertrand continua: “Temos os homens políticos que merecemos, que se parecem com a gente e que respondem aos nossos desejos. Falta coragem. Atualmente os cientistas falam da sexta extinção na Terra, o que significa a morte dos filhos dos meus netos: comida, temperatura… é o colapso de todo o sistema: biodiversidade, clima. No futuro, haverá muitas tempestades e os barcos não poderão sair para trazer alimentos.

“O Papa Francisco se refere a uma ‘consciência amorosa’. Eu adoro isso. Acho que hoje quando você vê o que se passa com o aquecimento climático, os políticos são incapazes de fazer um link com essa ‘religião do crescimento’. Não há como lutar contra o aquecimento global se continuarmos a crer dessa maneira, essa corrida do crescimento, o graal absoluto para os governos”, garante.

Numa cidade como São Paulo, se os caminhões forem impedidos de chegar, em três dias não tem mais comida. Estamos sempre nas pequenas soluções, porque os caminhões ainda chegam. Não estamos ainda na urgência”, faz o alerta.

Ele afirma que o problema é que como não tem uma direção mundial, cada um diz: se eu não faço, o outro vai fazer. E se os cientistas têm razão, o que vai acontecer é terrível (referindo-se a um documento assinado por 15 mil pesquisadores no mundo em 2017).

Ativista, diretor e fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand

“Vocês têm a sorte incrível de ter a floresta que é o maior ecossistema do mundo. Mas desmatamos todo ano no mundo uma área do tamanho da Bélgica”, Y A-Bertrand

Precisamos de uma revolução diferente

“Na França, reclamamos do governo. Monsanto (empresa de sementes e produtos químicos comprada recentemente pela Bayer) é terrível, mas se todos comessem orgânico, não haveria Monsanto. Para mim é tão claro. Acabaria”, garante.

Segundo Bertrand, quando pensamos na carne, na maneira como matamos os animais, é “insuportável”.

“O sofrimento animal é muito importante. Você não pode se esconder atrás disso. Se você ama a vida, não poderia aceitar a morte dos animais desse jeito. E é péssimo para o planeta. Nós sabemos que a carne industrial destrói o planeta e continuamos, estamos todos em um sistema e eu também. Se você continua a comer a carne e pegar o avião, você é como os outros (ele só come peixe).”

“Eu acho que é preciso uma grande revolução, mas não será política. Eles (políticos) são nosso reflexo. É uma revolução em que falamos de ética, moral, de honestidade, e também de gentileza e benevolência. Agir nos torna felizes”, afirma.

“Se vocês querem fazer alguma coisa pelo meio ambiente parem de comer carne industrial. Comam coisas que vocês sabem de onde vem e sejam conscientes do que está acontecendo no mundo”, Y A-Bertrand

Sobre o impacto das suas fotos e filmes como importante ferramenta para sensibilizar as pessoas, ele afirma que cada um deve fazer o que pode.

“Eu faço minhas fotos e filmes. É o que amo fazer. Mas você precisa estar pronto para receber isso. Os jovens de 20 anos estão prontos”, afirma.

“Woman”

A continuação do filme “Human” se chama “Woman” e está sendo rodado em 40 países. Já foram feitas mais de três mil entrevistas. Ele e a co-diretora Anastasia Mikova vão tentar explicar o que é ser mulher num mundo de homens. O lançamento está previsto para setembro de 2019.

Bertrand recebe muitas críticas sobre alguns dos patrocinadores dos seus filmes. Entre as empresas que o ajudaram, por exemplo, a realizar “Home” estão Gucci, Yves Saint Laurent e Puma. No caso de “Woman”, assim como na criação da sua Fundação Good Planet, há o apoio do Banco BNP Paribas.

Outras informações sobre Bertrand

  • ilustrou a Encíclica do Papa Francisco, Laudato Si’, que fala sobre a grave crise da humanidade e da necessidade de que façamos uma transformação profunda de nossos valores. Toda a renda será revertida a um orfanato mantido por Bertrand em Brazavile, no Congo;
  • abriga um casal de imigrantes da Eritreia em sua casa;
  • ele “puxou a minha orelha” quando eu disse que os orgânicos são caros no Brasil e insistiu que preciso fazer um esforço;
  • em 2009, foi nomeado embaixador da boa vontade para o Programa do Meio Ambiente da ONU;
  • recebeu algumas das maiores condecorações francesas, incluindo a Legião de Honra, e 12 escolas francesas foram batizadas com seu nome;
  • membro da Academia Francesa de Belas Artes ao lado de nomes como o seu grande amigo e fotógrafo Sebastião Salgado;
  • a Fundação Good Planet ajuda empresas a desenvolver iniciativas ecológicas, compensar as emissões de carbono e conter os gases do efeito estufa;
  • com o programa Ação Carbono Solidário, a Fundação já apoiou 41 projetos em 21 países, permitindo a construção de seis mil tanques de biogás e a instalação de mais de 10 mil fogões solares;
  • durantes seus 40 anos de trabalho com fotos aéreas já sofreu inúmeras panes de helicóptero e uma queda nos Estados Unidos em que uma árvore ajudou a amortecer o impacto e a aeronave só parou no telhado de uma casa.

“Ser um ecologista é amar a vida, os animais, o ar puro e também as pessoas. Não pode ser ecologista se não amar as pessoas e tudo que vem junto”, diz Bertrand.

Nossas experiências de vida nos transformam em quem somos e conhecer pessoas como Bertrand nos incentivam a vivermos nosso propósito e sermos nossa melhor versão. Esses dois temas estão sempre presentes nas minhas palestras in company e acredito que compartilhar relatos como esse, sobre pessoas que mudam o mundo, é uma grande inspiração.

Você teve algum encontro transformador, como o de Bertrand com a natureza, que te mudou para sempre? Me conta.

*O Inspira BB é um movimento do Banco do Brasil (BB) que visa compartilhar histórias e experiências singulares que emocionam, conectam e engajam na busca de uma transformação coletiva. São eventos com música, teatro e palestras no estilo TED. O BB é patrocinador do filme “Woman” e haverá uma exposição no CCBB em 2019.

Fotos: Divulgação Inspira BB

7 Replies to “Vivemos numa negação coletiva: sabemos o que está acontecendo no planeta, diz ativista Arthus-Bertrand”

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